domingo, 3 de março de 2013

Inesperávelmente incrivel


Detesto acordar ao sábado de forma não natural, e principalmente quando é o meu telemóvel aos berros, porque me estão a ligar.
E surpresa surpresa é o meu primo André, o que será que ele quer as 10 da manhã de um sábado, coisa rara ele estar acordado a esta hora e a ligar-me, será que se passou alguma coisa?
                - Rita tens de vir para Leiria o mais rapidamente possível…
                - O quê? Mas porque o quê que se passa?
                - Passa-se que consegui-nos uma actuação para amanhã à noite no “Villa”.
                - O QUÊ????
                - Sim, fala com o Filipe e com o Diogo, para virem já hoje, uma vez que não toco com vocês prai à um mês.
                - Claro claro, mas primeiro explica-me como foi isso possível?
                - Olha ontem fui lá por acaso com o pessoal …
                - Mas ainda estas em Leiria porque? Pensava que já estavas em Lisboa!
                - Não não, ainda estamos cá todos. Como estava a dizer, fomos lá ontem e ouvi uma conversa entre os empregados, a dizerem que a banda que ia lá tinha cancelado, e que agora estavam apertados. Olha ganhei coragem fui falar com eles e disse que tinha uma banda, mostrei o nosso vídeo, eles gostaram e contrataram.
                - Cala-te!! Lindo, ok ok, eu vou falar com eles e estamos ai o mais rapidamente possível. Já te ligamos.

Nem acredito nisto, não tocamos à imenso tempo em publico, eles vão ficar tão loucos, ainda bem que eles estão acampados cá em casa desde de quinta à noite. 
                               Depois de ter entrado na sala aos gritos e aos saltos, e de eles não terem percebido nada do que se estava a passar, lá me consegui acalmar e explicar o que se passava. Eles ficaram tao entusiasmados quanto eu. 
Entretanto fomos tomar o pequeno-almoço e começamos logo a falar do que íamos tocar, do que era preciso levar, quem era preciso avisar e quem tínhamos de levar cá de Coimbra. Não menos importante é ligar aos meus pais a avisar que este fim-de-semana vamos ter a casa cheia, e claro para eles falarem com os amigos para irem todos, ahahahah, temos é de ter casa cheia.

Após uma hora de correria constante nesta casa, temos tudo arrumado e pronto para ir embora, quero chegar a Leiria por volta das 13h/14h. 
A Leo, as irmãs e o Rodrigo vão lá ter mais tarde, provavelmente chegam à tardinha.
Já avisei os meus pais de que a cachopada toda vai lá ficar em casa estes dias. O que vale é que até temos um casarão grandinho e com quartos que chegue para toda a gente, eles nem se importam já é costume irmos todos lá passar fins-de-semana, aliás os quartos até já estão distribuídos e já nem existem discussões possíveis sobre mudanças. A Leo e as irmãs dividem um, o Rodrigo, o Diogo e o Filipe outro, e ainda temos o anexo caso seja preciso albergar mais alguém.


Já no carro, com o André em altifalante, vamos discutindo o que devemos ou não tocar, o que precisamos ou não de ensaiar a fundo, o que queremos experimentar de novo. Por isso é que gostamos sempre de ter espectadores nos nossos ensaios, para avaliarem as nossas tentativas de novas musicas a incorporar no reportório. 
Com as ideias no lugar, já mandamos o André começar a preparar a garagem e alguma coisa para nós comermos, a sugestão foi MAC como é óbvio, para assim que chegarmos comermos, montarmos os instrumentos e começarmos logo a bulir.

E bem dito bem feito estivemos todo a tarde e toda a noite a ensaiar, com o pessoal ao nosso lado a ajudar-nos no que fosse preciso. Eles chegaram por volta das 19h, na altura certa, fez com que fizéssemos um intervalo e fossemos jantar todos juntos a um Japonês.
A noite foi longa mas divertida, apesar de esta manha não estar a 100%, já ando de um lado para o outro a ver o que é preciso fazer para que esta noite seja perfeita.

Depois de um óptimo jantar de família cá em casa, eu e a banda retiramo-nos mais cedo, temos de estar no bar as 22h de modo a estarmos a tocar a primeira música lá pelas 23h30.
O Marco, o dono do bar, é um gajo super porreiro e mete o pessoal logo à vontade, até perguntou se tínhamos alguma “exigência”. Achei imensa graça, nunca pensei ter alguém a perguntar-me se tinha alguma exigência apenas por ir tocar.
As 23h30 o bar já estava completamente ao barrote, maioritariamente nossos amigos, mas mesmo assim não deixo de estar a tremer de nervosismo, à muito muito tempo que não canto para tanta gente. E a quando o Marco nos anuncia, mais pressão começo a sentir nos meus ombros.
As primeiras palavras saem um bocadinho tremidas:      

                - Boa noite, nós somos os “The Jack’s”, e espero que gostem … 
Foram curtas, mas o público mostrou-se entusiasmado, o que me fez sentir mais confiante, e a primeira musica saiu na perfeição e todos adoraram, assim como tudo o que se seguiu, mesmo certas desafinações ou partes das letras esquecidas, ninguém se importou e curtiram ate ao fim.

Para meu espanto, a meio do concerto, o Tiago entra pelo bar a dentro, com o maior sorriso de sempre.
A minha cabeça começou a rodar a mil à hora, só conseguia pensar o que é que ele estava a fazer em Leiria.

Ao intervalo, tive de ir falar com ele:
                - Mas o que é que estas aqui a fazer?
                -Achas que ia faltar a um concerto teu? Principalmente depois de só te ter ouvido cantar no SW??
                -Para isso não era preciso vires de propósito … nem contava contigo
                - Mas eu queria estar aqui hoje para te apoiar, quero que vejas que estou aqui e que não vou desistir de alguém como tu.
                - Ok … Obrigado …Espero que a viagem valha a pena, vou dar o mais que o meu melhor só por isso.
O meu coração esta a mil e não sei o que fazer às mãos, até que ele me agarra a direita e me deseja boa sorte com um beijo na bochecha e com um sorriso de morrer.

Após desta curta troca de palavras tive de regressar a palco. Antes de começarmos falei com eles, agarrei na viola e toquei Bem Howard – Only Love, que é meio que a minha música com o Tiago.
 Uma vez que depois de meia hora à procura um do outro no concerto de Ben Howard no Sw, nos encontramos ao som de Only Love e ele beija-me como nunca antes ninguém tinha feito, o que para mim foi um marco. E cantar esta música aqui, para ele, penso que é uma maneira de lhe dizer, que também estou aqui e preparada para por para trás das costas a separação que tivemos no início do ano.
Lá para as 2h30 cantamos a nossa última música e recebemos um grande carinho de todos os que estavam presentes, quando acabamos muitos vieram falar connosco e dar-nos os parabéns. Foi óptimo ouvir tantos elogios e saber que correu tudo bem, depois de tanto tempo sem tocarmos juntos.

Mas bom bom, foi ter as minhas melhores amigas presentes. Já não via a Margarida e a Sofia à tanto tempo, que tê-las esta noite ao meu lado e poder apresentar-lhes o Tiago pela primeira vez, para que elas me possam dar uma retrospectiva dele, foi tudo de bom.
E tal como pensei, depois de falarem uns minutos com o Tiago, deram o olhar de aprovação e vieram falar comigo:
                - Opa adorei o rapaz, nem sei dizer se ele parece a pessoa que te abandonou do nada no inicio do ano, sem dar qualquer explicação.
                - Mesmo a sério Sofia, mas olha Rita só o facto de se ter disponibilizado a fazer uma parga de quilómetros só para te ver cantar e te dizer aquilo. Arrisca, e além disso, desta vez és tu quem tem a faca e o queijo na mão!!
                - Ai meninas também acho, e vocês sabem que eu nunca o tirei da cabeça, que todos aqueles dias no SW, o eu ter ido ter com ele à Figueira e ele ter vindo a Leiria, todos os momentos do verão. Vamos ver, vamos ver.
Com um resto de noite calmo, sentados numa das mesas do bar a beber umas cervejas e a conversarmos, batem as 5h da manhã e decidimos continuar a conversa lá em casa. Pegamos nas tralhas, enfiamo-nos nos carros e acabamos no anexo, com mais umas cervejas e as violas.


Quase 7h da manhã e o Tiago faz-me sinal para irmos lá fora falar. O anexo é no jardim, perto da piscina, como as janelas estavam abertas conseguíamos ouvir o que cantavam e discutiam ao mesmo tempo.
Junto à borda da piscina ele pergunta-me:

                - Fiquei espantado com a escolha da tua primeira música após termos falado, porque?
                - Porque ela relembra-me quem tu foste para mim quando te conheci, os bons momentos que passamos no verão, o feliz que fomos durante três escassos meses …
Aproximando-se cada vez mais de mim, e deixando-me cada vez mais nervosa e sem saber o que fazer.
                - E é por isso que estou aqui. Para voltarmos a passar por tudo outra vez …
                - Mesmo a parte em que desapareces e nem uma explicação me dás?
                - Não, para te dizer todos os dias, o quanto adoro o som da tua voz esganiçada, o quanto me deixa louco o olhar que fazes depois de me beijar, o teu olhar inocente quando te elogiam uma parte de ti que detestas, o teu cantarolar pela manhã, o quando adoro quando te ris a meio de um beijo …
E sem mais hesitação beijou-me, como se fosse a primeira vez, mas agora com um misto de emoções à mistura que nem metade consigo decifrar. Sei que estou completamente rendida a ele, com uma lagrima a escorrer-me pela cara, e uma risada pelo meio, o nosso olhar selou o compromisso.

E foi por tudo isto que esta noite foi inesperadamente incrível, a minha banda deu um concerto óptimo, para quem não tocava à seculos juntos, e o vazio que sentia desde que tinha perdido o Tiago voltou a ficar preenchido. Foi tudo incrível e inesperado e perfeito, para uma única noite, não podia ter pedido mais nada.